Thursday, November 04, 2010

SCHUBERT

volvidos alguns dias e noites, ainda as imagens deambulam pela minha mente e uma angústia disfarçada aferra-se aos demais pensamentos. vi e vivemos de perto o desespero e a infelicidade na sua forma mais cruel enquanto assistimos agora impotentes. o lamento generalizado, para mim, e para nós em particular, é insuficiente e não se encaixa nesta dor que nos passa tão perto que nos trespassa e nos fere irremediavelmente.


arrisco dizer que nas nossas pequenas diferenças, somos na realidade, pessoas normais, comuns e pouco acrescentamos. ele não. o schu era um ser singular e peculiar. aparece uma pessoa assim quando nascem uma centena de milhares como nós.


são inúmeras as vivencias com ele que não cabem nas nossas memorias, que se multiplicam quando partilhamos histórias, que nos unem, que nos enaltecem, que à semelhança da arte, exteriorizam as nossas emoções e nos dão vontade de continuar..


schu e o wc do comboio.. schu e os caracóis.. schu e a sandes com areia.. schu e o esfregão da loiça do parque de campismo.. schu e a boleia pró barco.. schu e a gaja feia que o ci escolheu pra ele.. schu e a bênção ao figo doce.. schu de bicicleta pró vela.. schu e a jogadas na bolsa.. schu e o azeite na filha.. schu, o autocarro e a varanda.. schu e as crónicas da taurina.. schu e o putov no autocarro.. schu e a mensagem na ponte.. schu a tentar esconder o autocarro atrás duma árvore. schu e o hotel da tunísia.. schu a dar formação e a fazer perguntas ao negro nos intervalos.. schu e os discursos.. schu e o piropo: “que deus te dê muita saúde”.. schu, o negro e a banana.. schu e o zar a por moedas para ver gajas.. schu e a preocupação com o negro que ia para o hospital, mas afinal, para depositar dinheiro..


não por alguma razão em particular, mas o sentimento é de culpa. acho que sobretudo nós nos devemos sentir culpados nem que por uma percentagem ínfima. somos culpados sim, porque deixamos cair por terra um dos nossos. o schu escorrego-nos por entre os dedos não percebemos. entre todas perguntas que nos assolam, fica a certeza que de agora em diante caminhamos mais pobres.

Nuno Miguel Galvão Pires

andarás connosco até ao teu encontro.

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